Revista "Marketing Farmacêutico" - Janeiro/Fevereiro 2020
Diogo Fernandes Silva
Quando foi a última vez em que esteve numa “conversa” que mais parecia uma guerra verbal? Por exemplo, a discutir com um colega médico ou farmacêutico qual a melhor medicação ou até em interações com doentes ou familiares sobre qual a melhor abordagem num dado momento.
Conversas daquelas em que cada interveniente faz valer o seu ponto de vista de forma progressivamente mais vincada, com aumento do tom de voz e movimentos mais bruscos, impaciência e posições extremadas, à procura de razão, em vez da solução.
Estes são episódios que todos experimentamos, muitas vezes diariamente, a nível pessoal e profissional, com outros profissionais de saúde e até com doentes e familiares. Em termos de gestão de conflitos, estas interações caracterizam-se pela adoção por ambas as partes de uma estratégia de competição, na qual, cada interveniente se esforça apenas por satisfazer os seus interesses. O que sabemos é que competição atrai competição, e frequentemente estas interações escalam até um ponto em que só queremos ser ouvidos e ter razão.
Infelizmente, o resultado destas interações é mais frequentemente decidido pelo poder ou perseverança de cada um dos intervenientes, do que pela qualidade do argumento e da contribuição real para a solução do problema em análise.
Quebrar este ciclo é possível, e pode permitir-nos resgatar uma conversa já sem solução à vista. Mas não é fácil, dada a carga emocional normalmente associada a estes momentos.
A tendência é ver esta reação competitiva como uma ameaça, o que motiva uma resposta instintivamente semelhante. Mas com um pequeno momento de autoconsciência e autocontrolo, podemos evitar o comportamento automático de competição e adotar uma outra estratégia, a colaboração.
O ponto de partida é o facto de que a reação enérgica de alguém mostra-nos pelo menos que está interessada no problema e que pretende uma solução. Podemos discordar de como lá chegar, mas sabemos que há pelo menos uma janela aberta. Resta-nos abrir e explorar esta abertura, através de uma estratégia de colaboração, na qual não desistimos do nosso interesse ou ponto de vista, mas procuramos também entender o outro, na procura da melhor solução para o problema, quer seja a minha, a do outro, ou uma terceira alternativa que surge da discussão aberta e colaborativa.
Nem sempre é possível e por vezes, a solução certa será mesmo a A, ou a B. E é preciso ter consciência disso. Mas se não tentarmos ser os primeiros a parar, ouvir, explorar e compreender, então nunca conseguiremos transformar batalhas inesgotáveis em interações úteis, focadas na resolução do problema.
Uma das melhores formas de promover colaboração é recentrar a conversa nos objetivos comuns e não nos objetivos individuais, o que em saúde, pode e deve ser o bem-estar do doente e os seus resultados clínicos.
Isto faz sentido para qualquer equipa, e como tal, pode aplicar-se a momentos de discussão entre enfermeiros e farmacêuticos, médicos e doentes/familiares, gestores e farmacêuticos, ou seja, nas interações entre todas as profissões da saúde. Isto, se realmente queremos aproveitar o conhecimento e competências de todos os que compõem o sistema.
Com um pequeno momento de autoconsciência e autocontrolo, podemos abrir um mundo de possibilidades nesse momento, mas acima de tudo para o futuro, fortalecendo relações de confiança entre profissionais que trarão certamente frutos.domínios, e que poderão catalisar e potenciar a sua atuação clínica.
Diogo Fernandes Silva
Médico